22 de abr. de 2009

As mulheres não existem


Cheguei a essa curiosa constatação depois de alguns anos sendo uma delas. Somos feitas de papel, sonho, lágrimas, ousadia, sensualidades, cura, saudade, mistérios, venenos, cosmos e dragões internos. Somos feitas de todas estas coisas abstratas que, pensando bem, não existem.

Aquelas que não existem têm celulites, mais rugas, estrias a mais, e estatura a menos. Menos músculos aparentes, menos neurônios, menos tempo, e não são menos mágicas. Menos estatura, menores músculos, mas são elas que tiram os filhos do carro e levam pelo elevador, e colocam na cama. Mais lindas, muito mais lindas, talvez por isso. Porque têm mais celulites mas são elas quem usam biquíni na praia, corajosas, cadenciadas e tão onças, cada uma. Menos neurônios, sim, cientificamente comprovado. Mas muito mais eficientes, porque, apesar de menos numerosos, dão muito mais resultado, vai ver lá quem decide qual será o programa de hoje a noite, ou a cor da parede da sala! Menos tempo, ainda, e muito mais: porque se subdividem em mãe, filha, irmã, amiga, vizinha salvadora da pátria, enfermeira, mãe, mãe de novo, provedora, fera, colo, patroa, perua, e todas as fantásticas mil mulheres que existem dentro de cada uma.

Eu tenho bem claro em mim que as mulheres não existem. A sua essência é por demais mágica pra ser verdadeira, palpável, coisa, entende? Elas não existem, são obras de si mesmas, lapidadas dia-a-dia pela força interna e inesgotável de cada uma delas. Que nem são; como os sonhos muito bons dos quais acordamos, como os doces tão bons que nunca provaremos, como as melodias tão belas que nunca ninguém inventou. O seu pecado original nem é a maçã, mas elas mesmas, que já são a maior maravilha e subversão de Deus.

Mulher apaixonada

Uma mulher apaixonada é um fogo doido - mesmo as mais mansas, e principalmente essas. Seus olhos enchem-se de brasa, seu peito, seu sexo. Sua mente preenche-se de ventos, tempestades, tornados. Seus pés ficam mais fortes, pisam rijos sobre seus finíssimos saltos altos, e é como se pisassem sobre duras plataformas de metal. Uma mulher apaixonada é tão mansa e vagarosa nos seus jeitos quanto a lua cheia, clara, brilhante e serena, sua luz não se apaga mesmo com a nuvem que perpassa seus arredores, pelo contrário fica misteriosa, sensual, mostra ainda mais poder . As mãos de uma mulher apaixonada mexem-se mais, bem como seu tronco todo, que é um vai-e-vem a cada suspiro.
Uma mulher apaixonada encontra-se em cada música de rádio, e perde-se em cada esquina, erra caminhos, gasta-se dirigindo pela cidade e arrumando-se ao espelho, nas noites de insônia ela escreve romances de si mesma. Das músicas de outrotora, de outros amores, resta uma ou duas pra guardar no livro de memórias da vida. Todas as outras, aquelas centenas de canções, dá ao seu novo homem que nem mesmo seu ainda é.
Deixa os carros atravessarem sua frente, dá a vez em filas de banco, vê nos rostos alheios aquele que povoa continuamente seu pensamento.Esta mulher é mais boba que criança mentindo, mais brava que soldado em combate, mais convicta que um índio apache de faroeste americano. Uma mulher apaixonada é mais doce que um sonho cor de rosa, mais rara que ouro, mais presente que o narrador da história, mais lambuzante que bombom de licor, mais viva que os vivos, mais estúpida que os brasões da república – e não se reveza com ninguém, senão com este homem que ainda não é seu, ora em cima, ora em baixo, ora em cima...
Esta mulher não ora, esquece-se de deus. É a única mulher cujos santos não condenam suas vertigens sacramentais, e cujos anjos têm sexo, meu amor, e muito!