
Cheguei a essa curiosa constatação depois de alguns anos sendo uma delas. Somos feitas de papel, sonho, lágrimas, ousadia, sensualidades, cura, saudade, mistérios, venenos, cosmos e dragões internos. Somos feitas de todas estas coisas abstratas que, pensando bem, não existem.
Aquelas que não existem têm celulites, mais rugas, estrias a mais, e estatura a menos. Menos músculos aparentes, menos neurônios, menos tempo, e não são menos mágicas. Menos estatura, menores músculos, mas são elas que tiram os filhos do carro e levam pelo elevador, e colocam na cama. Mais lindas, muito mais lindas, talvez por isso. Porque têm mais celulites mas são elas quem usam biquíni na praia, corajosas, cadenciadas e tão onças, cada uma. Menos neurônios, sim, cientificamente comprovado. Mas muito mais eficientes, porque, apesar de menos numerosos, dão muito mais resultado, vai ver lá quem decide qual será o programa de hoje a noite, ou a cor da parede da sala! Menos tempo, ainda, e muito mais: porque se subdividem em mãe, filha, irmã, amiga, vizinha salvadora da pátria, enfermeira, mãe, mãe de novo, provedora, fera, colo, patroa, perua, e todas as fantásticas mil mulheres que existem dentro de cada uma.
Eu tenho bem claro em mim que as mulheres não existem. A sua essência é por demais mágica pra ser verdadeira, palpável, coisa, entende? Elas não existem, são obras de si mesmas, lapidadas dia-a-dia pela força interna e inesgotável de cada uma delas. Que nem são; como os sonhos muito bons dos quais acordamos, como os doces tão bons que nunca provaremos, como as melodias tão belas que nunca ninguém inventou. O seu pecado original nem é a maçã, mas elas mesmas, que já são a maior maravilha e subversão de Deus.
